Uma definição de cultura e cultura no Campus
Cultura é a nossa raíz e o nosso destino. Seja pela descoberta do
fogo tal como narrada cientificamente a respeito do Homo erectus, seja
pela narrativa de Prometeu que, roubando dos deuses o fogo (e metonimicamente a
sabedoria da intencionalidade capaz de obtê-lo) trouxe-o ao Homem, seja,
afinal, por narrativas mais contemporâneas sobre o contato com alienígenas ou
com Lavos, em um passado longínquo, que teriam dado um poder sobrenatural ao
bicho homem, é inevitável que haja um descompasso entre a presença animal e a
presença humana, a ponto de classicamente termos atribuído, com dificuldade, o
epíteto de “racional” ao animal para tentar demarcar essa diferença. Por
quaisquer narrativas disponíveis - a científica, a mitológica, a especulação e
ficção do nosso tempo - apontam para o mesmo momento de transição em que o
homem tomou posse a primeira vez da intencionalidade, isto é, da capacidade de
percepção entre uma causa e seu efeito. É a representação da primeira expressão
de cultura.
A linguagem é a forma mais onipresente de cultura. É
também aquilo que mais facilmente a revela. Pode-se dizer que cultura é a
distinção entre atos, ou expressões. Separamos um nome específico para falar do
ato sexual animal: copular, de modo a distinguir a enorme gama de
possibilidades unicamente humanas do ato, de raiz natural: fazer amor, transar,
fuder, trepar, para não entrar em variantes poéticas, da própria composição
sonora até o seu significado existe uma harmonia entre as maneiras e propostas.
De um amor feito com longas preliminares até uma rapidinha, seguida das
inúmeras posições possíveis e impossíveis - cachorrinho, 69, crente rezando, da
importação do kama sutra indiano até o clássico papai e mamãe -, as
várias modalidades, por exemplo, um de fellatio - clássico, com lambida,
com sugada, garganta profunda, e, por que não, espanhola - todas essas palavras
revelam a complexidade técnica e, por assim dizer, artística, que assume o puro
e simples tesão natural que impele ao coito. No ato mais banal, e mesmo tabu de
ser falado, é possível ver os ecos da história inteira das civilizações
humanas, sua mescla, a separação entre gerações, conforme os modos de expressar
um ato. E, é necessário mencionar, que eu saiba, não há macaco travesti, menos
ainda formiga, e se nós tentamos encaixar nossas categorias nos animais, como a
linguagem na macaca Koko ou num pedaço de metal rodado a números, é menos pela
capacidade inata destes e mais por estarmos nos colocando na mesma posição deus
ex machina do criador de uma nova Inteligência autônoma. O nosso olhar
artístico molda o ambiente animal para tornar mais propício que as coisas
ocorram com maior precisão tal como nós a vemos interiormente para tentar
tornar o natural, ou o artificial, imagem e semelhança nossa; de longe, isso é
marca menos da inteligência deles (ainda que estejam de fato ficando mais
inteligentes), e infinitamente mais nossa, que galga assim novos e novos
degraus.
É preciso, porém, fazer algumas distinções. Existe a expressão, que é um ato, a intenção, que é a motivação que gerou esse ato, e podemos dizer que há eficiência, que é o quão precisa é a expressão em relação à intenção. Recentemente vi a ocasião de que, na falta de filtro de café, e com o vício de café (seria vício é a palavra certa pro nosso cafezinho de sempre?), uma pessoa bastante criativa tentou usar papel-toalha na função de filtro. O resultado foi péssimo. É digno de muito elogio a habilidade criativa, mas, na prática, foi uma ação pouco eficiente, sobretudo em relação ao filtro. Do mesmo modo, tomar café em um copo de alumínio sem alça e a fala de um estrangeiro que começa a duras penas a dominar o idioma nativo, são exemplos de falta de eficiência. Quanto menos eficiente, maior o esforço de captação da intenção da parte de um outro, como a mãe que decifra os gugus-dadas ou o simples choro instintivo, genérico e universal, da sua prole.
E onde está o campus, vocês perguntam? Está aqui. Nossa
última distinção: a diferença entre expressão e cultura é tão-só que esta
última é a coleção de expressões. Dito isso, em qualquer ambiente tomado por
pessoas há uma sucessão de adaptações impingidas a ele artificialmente e há uma
história dessas adaptações e dos fatos ocorridos ali. Se nosso campus não fosse
um enorme terreno de mais de 120 hectares, com setores e prédios espalhados uns
dos outros, mas sim um prédio de 40 andares, muito da nossa história seria
diferente. Se ele é daquele jeito e não deste último é por inúmeros motivos, de
necessidade a legado histórico de formas arquitetônicas e compreensão sobre
interações humanas, enfim, é por uma coleção de intenções e um cálculo de
eficiência.
O campus, mas poderia ser uma fábrica de costura ou um grupo de
amigos de classe alta, é um espaço com uma cultura e história, que, por sua
vez, boia sobre espaços concêntricos que influenciam e são influenciados por
ele. Uma turma de alunos adquire certos modismos de fala com seus professores -
ou com um professor - e são uma das turmas que estão imersos no campus, que
está imerso na cidade de Natal, que está imersa no RN, que é imerso no
nordeste, que é imerso no Brasil, que é imerso no planeta - e, se há miss
universo, por que não completarmos? -, que é imerso na história do universo. Um
asteroide que entrasse em rota de colisão com a terra mudaria todo o curso da
nossa História - como de fato mudou, o da história, uma vez - e uma aluna de
artes que decide fazer intervenção artística, trajando farrapos feitos à mão,
focinheira, e imitando um cachorro, se talvez tenha na história do universo o
peso de uma formiga que passeie no corpo de um adulto, mas é o suficiente no
mínimo para gerar efeitos localizados que, por sua vez, alteram a ação desse
mesmo adulto. A exemplo, eu vi, e isso me mudou e me trouxe aqui, e esse mesmo
ato já foi registrado em livros de alcance mais nacional. A expressão verbal
desses atos, porém, é só um sintoma, como o “ai!” da picada da formiga, que
serve para demonstrar que houve um efeito e que ele se prolongou. A formiga
pode ser miudinha inofensiva ou injetar veneno, e, seja qual for, a mordida
será notada.
De modo geral, as histórias dos espaços pequenos não é
registrada por se considerar irrelevante em relação aos espaços maiores. É que
a ação do pequeno sobre o grande parece insignificante em relação à ação do
grande sobre o pequeno. Se não estou enganado em detalhes, foi uma canetada na
Constituição de 1937 de Getúlio Vargas, no seu artigo 129, que gerou o
movimento histórico (e veio de uma tendência histórica) das escolas populares,
nas quais minha avó a duríssimas penas conseguiu uma chance de se educar
minimamente, e passar para a minha mãe e chegar até mim, que estou aqui
redigindo isto e tento tomar posse consciente dessa história, ainda que talvez
minha ação não tenha alcance nacional imediato. Do mesmo modo, foi dentro desse
quadro aberto nacionalmente que um “jeitinho” do prefeito ipueirense Chico
Quinino conseguiu uma escola rural próxima da cidade e gerou o prolongamento da
educação na cidadezinha minúscula, mas que gerou professores do nosso campus,
como também pessoas que foram para fora pelo programa Ciência Sem Fronteiras,
por exemplo.
As ações são feitas por homens, são expressões culturais,
que deixam uma marca nisso que chamamos história, e essa marca, por sua vez,
estudada, revela um mundo de significação que influencia, por sua vez, o
intérprete, para que tome decisões cada vez mais eficientes. Estudar cultura é,
em outras palavras, estudar as possibilidades de ação humana: seus efeitos,
suas causas próximas (intenção) e remotas (as influências subjetivas pessoais
ou por grupos em disputa, o conhecimento disponível). Destas, uma última é
preciso apontar: o conhecimento disponível. Toda ação depende das suas
possibilidades, e a mais imediata é saber fazer. É possível descobrir uma ação
possível “no chute”, e daí aquela expressão passa a ser associável com uma
intenção, se torna conhecimento. Mas à parte o chute, ou o milagre, tudo o mais
depende do conhecimento: quem não sabe violão não vai tocar Legião Urbana nas
rodinhas de amigos (e quem sabe perder um possível coração apaixonado que
geraria toda uma história futura), quem não sabe violoncelo não se apresentará
em orquestras, quem não sabe nenhuma língua fora do português terá à disposição
uma bibliografia de conhecimentos miúda, e pouco saberá do que houve e há para
além da nossa ilha, quem não conhecer a história do seu lugar, micro ou macro,
também não saberá quais as tendências impostas a si, quais as dos seus
semelhantes, qual o potencial de crescimento máximo de si e destes. Nos dizeres
de Cascudo, terminará “parecido com todos”, porque o que nos distingue é menos
a expressão do que a intencionalidade: fisiologicamente universais,
psicologicamente regionais. A mescla cultural, que não havia na época e na
ênfase de Cascudo, apenas acentua a necessidade de discernimento para atingir o
pleno potencial da ação humana.
Uma criança sabe brincar de esconde-esconde, mas não sabe
que, com isso, está mapeando o terreno do seu entorno; esse é um efeito da sua
ação na sua memória, mas que ocorre inadvertidamente, como com os animais.
Nossa distinção é, por meio da própria cultura, tomar posse de intenções
possíveis, até o ponto de perceber a própria fonte de toda cultura humana, e,
portanto, o elo prometeico. É isso o que distingue um médico de seu paciente,
Dante do nosso Manuel de Azevedo, Shakespeare de um macaco, Penny Patterson e a
gorila Koko, a equipe programadora e IA AlphaGo, capaz de vencer o melhor
jogador do mundo de Go, mas não sem antes passar por um processo de longo
aprendizado da “história”, i.e., das possibilidades do jogo.
No meio disso parece que esquecemos do campus, mas, não,
ele está aqui: fisicamente, na nossa memória e na do espaço, de uma vez para
sempre. A história, como a formação geológica, é essa sobreposição de fatos,
que nunca apagam os resíduos, que ficam um pouco, revelando-nos que nem
tudo se desfaz. Mas antes de escavarmos nosso sítio arqueológico (ou nosso
poço de petróleo, quem sabe), é preciso compor as ferramentas. Acredito eu que
já estamos com as principais, mas que falta de vergonha na cara seria quebrar
com a unidade de um texto para começar outro - porque mapear o terreno do
campus requer umas boas doses de fofoca - só pela ansiedade, não? Parece mais
justo aguardar pelo próximo texto para falarmos do assunto com mais liberdade.
Voltemos então ao princípio: o fogo prometeico e o coito. Sem o primeiro somos (atenção: somos) animais, sem a cadeia reprodutiva desde o princípio da espécie até os nossos bisavós, avós e pais (e desde o primeiro átomo, se preferir) não estaríamos aqui agora. O coito, o primeiro fogo, foi aperfeiçoado por esse segundo, e passou por inúmeras expressões revelando aspectos da relação entre duas pessoas: da pederastia grega ou do mancebo para um agrupamento, militar ou cangaceiro, do amor romântico de Manuel Macedo, do amor sublime de Camões ou Dante, da explosão de termos com a finalidade de expandir os prazeres possíveis do sexo e da sexualidade e gênero da metade do século XX pra cá. Toda a nossa história está de certo modo contida em uma expressão cultural, e na cultura a que pertence: basta perceber o elo, revelado pela linguagem. Quem diz “mangina” não pertence ao mesmo grupo ou sub-cultura (não em sentido pejorativo) de quem diz “gordofobia”, nem no exato mesmo grupo de quem fala “aporofobia”. Quem diz “vou mijar” provavelmente não está na mesma faixa etária de quem diz “vou fazer xixi”, nem de quem diz “vou fazer pipi” ou “vou urinar”, ainda que o ato, genericamente, seja o mesmo. Não é, mas é: sinônimos não existem, exceto como espécies de um mesmo gênero. A percepção do gênero, porém, é um esforço de abstração que tenta achar um princípio comum das espécies: é essa capacidade que permite medir eficiência da expressão, por exemplo. É essa habilidade que permite perceber aquilo que não gostamos mais de admitir: o valor. Dela, por exemplo, se percebe que o amor de que fala Camões ou Dante revela mais o humano, o centro gerador da inteligência humana, do que uma trepada no estilo 69. De todas as intencionalidades possíveis, como o prazer de si, do parceiro ou de um terceiro, com a pornografia ou o voyeur (são prazeres distintos que requerem posições distintas), da experimentação pura dos corpos aos fetiches, catalogados (SM) e ainda incatalogáveis, sendo a cultura expressão que parte de uma intenção, o ato mais elevado consiste na expressão que busca reconhecer a impressão geradora, a causa. Não por acaso existem os estudiosos: sociólogos e cientistas sociais, psicólogos, neurocientistas e biólogos evolucionistas; e os aplicadores: engenheiros sociais, propagandistas e marketeiros etc.. Ainda assim, um exame de anamnese, ainda mais se atrelado ao estudo desses mesmos documentos, permite chegar à causa da causa, como tentam os esotéricos (Nova Acrópole, por exemplo), e à causa da causa da causa, como tentam as religiões, ou algo assim, de modo a, sucessivamente, em elos de significado, perceber com mais precisão essa mesma chama prometeica que abrange e explica todas as possibilidades humanas num só golpe de percepção intuitiva, num insight ou numa eureka. É ela que revela no coito o modo de fazer extranatural da chama, e a transforma do fogo do sangue no fogo do espírito. Entre um e outro, terra e céu, afinal, de mesma fonte atomística inalienável, estamos nós e está o nosso campus, com toda a sua sucessão de fatos e atos, relacionamentos, estudo, novas propostas e evolução do espaço. É dele, deste pedaço de espaço que boia na imensidão, que tentaremos crescer em conjunto, para cima e para dentro, para podermos dizer que estamos ao mesmo tempo no local e no universal, conscientes e com força de ações cada vez maiores e mais sérias, conosco e com os demais. É só nessa posse gradativa que tomamos realmente conta da nossa humanidade e damos conta aos demais daquilo que eles também precisam aprender se querem contribuir com os demais membros da espécie. Ricos ou pobres, acadêmicos ou analfabetos, pretos, brancos ou mestiços, otakus ou forrozeiros, travestis ou sis, o chamado íntimo da consciência cabe a todos os que aceitarem o desafio, venham de quaisquer composições culturais vierem, e se desenrola conforme seu corpo e seu desejo, e mais este do que aquele. A fonte do fogo é, em última instância, a mesma, seja ele físico, fisiológico ou espiritual: resta perceber os ecos que ecoam na memória de cada um de nós e, aqui e ali, dão mostras a nós deste chamado, ainda que não lhe demos a devida atenção.
Comentários
Postar um comentário