Uma dica Pessoal

             Não é trabalho deste projeto compor crítica literária ou cultural sobre o que quer que seja, apesar de que, admito, adoraria tecer alguns comentários aqui e ali. Apesar disso, é necessário, por questões metodológicas, traçar uma imagem de uma obra em particular que será de apoio no processo. Em paralelo, explicar um pouco a metodologia adotada para o Crônicas do Campus. Para isso, será preciso contar com a ajuda do poeta Fernando Pessoa.

            Primeiramente é preciso dizer por cima, como quem desenha um mapa inicial, o que é a literatura. Literatura é aquilo que não é a descrição imediata de fatos, mas sim assumidamente sua representação. Assim pode-se encaixar tanto a literatura que trabalha em cima de fatos reais, como a ficção fantástica, que pode ir aos mais extremos limites, sem contudo, deixar de ter a marca da humanidade pelo fato de ter sido pensada por humanos. De Homero a Cells at work! Verossimilhança é a palavra que denota esse esqueleto que é inevitável em qualquer pensamento nascido da inteligência, ainda que se tente deformá-lo ou reinventá-lo indefinidamente, como nas tentativas da arte moderna. Não deixa de ser verossímil, só se torna menos verossímil, isto é, verossímil para um público mais restrito, previamente trabalhado. Além disso, a literatura é a ênfase na representação em si mesma, seja quanto aos fatos, seja quanto às emoções humanas - daí a poesia. Assim, cabe na literatura a representação de todos os elementos que, no texto anterior, eu propus descrever: algumas mais fictícias, outras mais comentadas. Há, no meio-termo do fato e a realidade a crônica, mescla que não se sabe mais se fictícia ou factual. Penso sobretudo em alguns aspectos, como ao descrever a arquitetura.

            Em segundo lugar, ao contrário das tentativas de horizontalizar toda a cultura, existe categorias de classificação, e, dentre estas, algumas de distinção vertical. Assim, por exemplo, para a literatura enquanto habilidade humana, é evidente que um texto mal escrito tem menos valor do que um texto que reaproveite a própria técnica poética. O poeta Igor Barbosa, fundador da editora Viv, diria que o oposto de tradição é improviso. E um texto que apenas reaproveite também não tem o mesmo valor, para a técnica, do que um que além de utilizar, gere novas possibilidades de uso. A História, do ponto de vista progressista, é justamente esse acúmulo progressivo dessas invenções do espírito humano. Assim, por exemplo, quando se resgata hoje Carolina Maria de Jesus é tentando encaixá-la não mais como documento histórico, mas pela potencialidade técnica - com ou sem intenção plena de artífice - que se impregnou nos seus textos. Do ponto de vista da técnica, pouco importa o autor do texto: importa apenas essa catalogação das possibilidades, no caso, expressivas, e onde e como são melhor utilizadas. Isso vale para a literatura como vale para a programação de computadores, para a formação de um físico, cientista, ou para a construção de um físico pleno, na academia do corpo.

            Ao mesmo tempo, literatura não é só técnica: é também conteúdo. E aqui os alunos de Letras fugirão com bastante gosto, ainda que no fundo tenham um juízo pessoal, pois há, também aqui, distinção vertical de valor. É preciso prepará-los, antes, que é óbvio que todas as etapas verticais são úteis: elas não são excludentes, mas complementares. Do mesmo modo,no aspecto técnico, mesmo a não-técnica, o deslize,o erro, a ideia mal executada, pode ser a base para ideias maravilhosas, como Bandeira comenta, pela poesia, no seu Itinerário de Pasárgada, Stravinsky, na música, em seu Poética musical: seis lições, ou ainda Jacob Colier [1]. O reaproveitamento, porém, requer a ascensão nos níveis: só se pode aproveitar o “mal” quem ascendeu no bem o suficiente para encaixá-lo num quadro de sentido positivo. Schoenberg escreveu músicas bizarrisimas, mas não só: ele dominou tanto a harmonia que compôs um manual inovando toda a teoria musical sem propriamente negar a anterior, como a física quântica com a mecânica clássica. Assim também na técnica literária, e também nos temas. De todos os temas literários possíveis, a intenção do autor pode variar. Posso traçar, a título de introdução, a distinção entre obras com foco em entretenimento (Harry Potter e afins), obras com foco em descrição sociológica (Frei Betto, o que li de Jorge Amado), obras com ênfase em temas mais gerais (Machado de Assis com a descrição do “Mal banal”, onde cada obra se torna um exemplo desse mesmo ponto geral, ou Nelson Rodrigues, em menor escala, com o “mal da paixão”), e obras com ênfase em descrever certos fenômenos da inteligência humana (narrativas sacras e iniciáticas como Camões, Shakespeare, A Flauta Mágica de Mozart, obras de Dostoiévski, ou, mais recentemente, Fullmetal Alchemist Brotherhood e a saga When They Cry). Das últimas, porém, existe a distinção entre as sacras e as iniciáticas, visto que as primeiras geram a possibilidade das segundas. Por outro lado, simbioticamente, as segundas são a raiz para se entender as primeiras.

Assim como no texto anterior, a distinção entre, das obras bem posicionadas,a  intenção sociológica, individual-moral e intelectiva, também aqui a coisa se assemelha. A ideia na verdade é simples: à parte o entretenimento, a descrição sociológica ou de uma cultura ou de uma ciência depende em primeiro lugar da sua inteligência e em segundo do seu grau de abrangência horizontal. Alguém pode ter visto de tudo, mas não ser capaz de articular ou tirar proveito: e muitos poliglotas viajam o mundo só para, ao final, descobirem-se mais vazios do que ao começo da jornada, como o triste caso da Jana Fadness. A diferença entre um velho ranzinza e um velho sábio não é na quantidade de conhecimento, mas na capacidade de articulação e captação de sentido no conjunto. Em suma, não conhecimento, mas inteligência. O século XX foi marcado pela separação abissal entre a técnica e a inteligência no conteúdo: os artistas e cientistas se trancaram em torres de marfins com obras incompreensíveis para o público leigo [2]; já o conteúdo, sem o treino perceptivo que a técnica oferecia, se diluiu em questões sociológicas esparsas e insolúveis, porque cada vez mais surgem mais e mais demandas e problemas, pois a sociedade jamais foi nem será perfeita, simplesmente porque bolar um sistema que agradasse todas as partes só funcionaria com robôs que também não mudassem seu papel social [3]. Portanto, ser capaz de depreender a técnica, de um lado, e depreender as questões gerais ou, mais ainda, os modos de funcionamento da inteligência humana, são justamente os conteúdos mais importantes da literatura. As questões sociológicas se tornam, com isso, recursos tanto para conhecer os problemas ao qual se vai devotar na vida, como para extrair as visões gerais de causa-efeito, como a presença do Mal e como ele se manifesta, com quais motivos e quais as soluções possíveis. A obra de Shakespeare é um testemunho maravilhoso, por exemplo, da junção de domínio técnico da língua, da forma de composição narrativa, e de conteúdo iniciático.

Enrolei e enrolei, mas agora podemos voltar aos poucos para o Campus. Falta só uma parada no caminho. Fernando Pessoa. Costuma-se entender errado sua relação com o esoterismo e a astrologia, como se fosse apenas algo “excêntrico”, quando, na verdade, é concêntrico: Fernando Pessoa é Fernando Pessoa não apesar dos seus conhecimentos extra-poéticos, mas por causa deles. Quem só dominasse a técnica poética só poderia falar de questões sociológicas, o que não é nem de longe a circunstância de Pessoa. É também outro mistério para a nossa época, mas os autores clássicos e/ou que duram no tempo sabem que são e que durarão. De modo geral, sabem inclusive por que e como. A universidade e as academias de letras criam a ilusão de que, por deixarmos uma obra fixada numa área, ou, ainda, recebermos o nome de “imortal”, seremos de fato. Talvez um nome numa lista que ninguém necessariamente procurará ou conseguirá ver ali uma vida que quis sobreviver no tempo.A sobrevivência no tempo implica em deixar um legado firme, contínuo,que só pode nascer na medida em que o sujeito largue seu auto-centrismo e se excentrialize-se, ou seja, passe a se interessar por algo fora de si com tanto afinco que sua vida e obra se tornem uma expressão dessa coisa fixa. É a diferença de especializados para especialistas: os que sofreram desde fora e os que geraram desde dentro. Novamente, a perda do senso intelectivo faz com que a coisa seja apenas uma briga temporal e que o vencedor num instante seja o “eternizado”, o que é algo totalmente falso. Mas voltemos à Pessoa.

Quem foi Fernando Pessoa? Não interessa sua vida. A melhor maneira de descrevê-lo é as páginas de introdução colocadas na edição da Nova Aguilar para a obra Cancioneiro e Mensagem [4]. Ali está o que ele descobriu pelo estudo extrapoético, e que gerou sua técnica: a percepção de que o que se passa interiormente tem relação direta com o que os sentidos captam, sobretudo a visão (o começo da Metafísica de Aristóteles ecoa aqui). Isso é parte do que eu acho relevante colocar aqui nas Crônicas do Campus, por serem um texto que, de um lado, tenta dar nomes aos objetos do campus, de outro, é um relato pessoal. Essa, aliás, é uma das funções da literatura: mostrar o nome das coisas. Ler textos locais, escritos por pessoas do interior, por exemplo, é um excelente recurso para decifrar termos da fauna, flora, objetos em uso e a relação disso tudo com as pessoas, além das pessoas umas com as outras.

Mas, há ainda um recurso em Pessoa que o alçou ainda mais alto, colocando-o ao lado de Camões. Foi sua Mensagem. Mensagem é, em resumo, um livro-profecia. Não por acaso é chamado às vezes de epopeia: é, de fato, uma epopeia em técnica moderna da poesia. Não é um texto corrido, mas uma coleção de poemas, revelando o caráter fragmentado da nossa época, ao mesmo tempo em que tem uma ordem sistemática e intencional, que muito lembra o prefácio de Marshall Mcluhan em seu “Os meios de comunicação como extensões do homem” ao descrever o novo modo de lidar com a vida na época da junção das culturas. Ao mesmo tempo, Pessoa coloca tudo dentro de uma unidade: o brasão de Portugal é o centro de onde nascem os poemas. O conteúdo, por sua vez, é uma visão da história portuguesa, ao mesmo tempo em que mostra os modelos de ação humana que nasceram dela, como, por exemplo, o heroísmo ativo e passivo, os castelos e as quinas. Tudo embalado num sonho de uma Portugal renascida e forte. Das 3 intenções, eu colocaria como uma proposta individual-moral, porque seu manual serve para qualquer português que queira conhecer as potencialidades brotadas da sua própria terra. De minha parte, se eu vir a estudar história portuguesa algum dia, eu usarei Pessoa como o mapa para decifrar seu conteúdo. Por outro lado, encaixando Pessoa dentro do contexto pessoal e do potencial máximo da obra, Mensagem poderia ser de intenção intelectiva: a construção de um país depende de algo que está acima dele, que é justamente a meditação da ordem total. Dante é maior que Camões porque usou o italiano para descrer não a Itália, mas a ordem da alma humana; assim também é maior do que Pessoa, mas Mensagem bem pode ser visto como um mapa da ordem necessária para se estabelecer um “ser humano completo”. Eu teria minhas dúvidas, mas se aproxima. Porém, como a proposta do Crônicas do Campus é ser localista, Dante nos serve menos do que Pessoa ou Camões: convém descrever não a alma humana em geral, mas tentar ver o campus como uma profecia possível de significado. E, por que não, aproveitar o brasão do nosso espaço?



 

Ora, pois, muito bem. Não custa tanto sonhar com o brasão como um mapa para decodificar as possibilidades do campus. E se falo “O Campus” é porque, certamente, não diz respeito a um em particular, só acidentalmente. A ideia poética de uma obra como Mensagem é conseguir permitir ao leitor olhar para a imagem e, num relance, ter uma visão da história e das possibilidades imbricadas ali e na história do local. Todo conhecimento ressignifica a vida, revela suas potencialidades. Mas, dentre os conhecimentos, a arte é a própria meditação sobre o ato de ressignificação. As ciências, mesmo as humanísticas, como a historiografia e a própria história, nascem de um parto cesariano, e, mesmo assim, são afastados da mãe desde cedo. Órfãos, perdem o vínculo e desconhecem seus próprios trejeitos e potencialidades legadas pela genética. A arte, portanto, é um veículo interessante para trazer de volta essa proposta epistemológica interdisciplinar. E Pessoa será, como Virgílio para Dante, um bom auxiliar nessa jornada. Esse não será o único recurso, mas além de ser um dos principais, será também o inspirador do processo.

Por fim, este é provavelmente o último texto técnico. Daqui em diante virão propriamente as crônicas. Espero sobretudo que possam se divertir. Sei que não é o mesmo divertimento que dá um Spotted, mas quem sabe possa ao menos atiçar a curiosidade para abrir os olhos para o campus que temos. Sejam todos bem-vindos.



[1] That’s not a wrong note, you just lack confidence.  https://www.youtube.com/watch?v=meha_FCcHbo

[2] Ortega y Gasset, a desuminazação da arte; Vilém Flusser, filosofia da caixa preta; A literatura em perigo, Tzvetan Todorov. Segundo me parece até agora, o abismo começou a se formar na Crítica da Razão Pura de Kant.

[3] Daí a constatação hindu e perenialista de que estamos na fase da impossibilidade de ordem social perfeita, a Cali Yuga. De minha parte, o análogo de Cali Yuga é perceber que toda ordem é posta dentro de um limite esperado, porque não pode encaixar com perfeição todas as suas possibilidades. Assim um elevador, uma estrada ou um sistema rodoviário é feito com uma expectativa de uso e um limite: se o uso passa da expectativa, tem-se o caos e a confusão até o reajuste. Um elevador planejado para caber 3x o peso habitual só porque “pode ser que venham muitas pessoas acima do peso algum dia” é mortalmente ineficiente; idem, uma estrada planejada para pós-indústria quando, do barateamento dos carros, as estradas se congestionassem de tantos carros. Planejamento, quebra e replanejamento incessante é inevitável: agora temos algo rumo aos 8 bilhões, mas de repente a natureza manda uma pandemia ainda pior que a anterior e a coisa reduz pra 1 bilhão. Ou, ao contrário, de repente bate um tesão monstruoso em todo mundo ou um novo movimento social e a população se expande pra 10 bilhões. Ou a China decide mandar seu povo em larga escala pra outros locais; tudo isso quebra toda a expectativa da dinâmica social planejada. É inevitável. A condição humana real é um barquinho boiando em algum lugar do mar ao qual só pode rezar para conseguir chegar vivo à terra firme.

[4] Para interessados, ver em: https://imgur.com/a/zntYD2Q

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