O puxa-saco

            Não sei se é possível ter uma imagem clara do que acontece em um país ou local, mas uma coisa é certa: pela contagem dos fatos, vivemos algo nos anos em torno de 2012-2017, e agora vivemos outra coisa. Foi na nossa cidade que aconteceu a revolta do passe-livre, a queima de ônibus de uso público em setembro de 2012, evento que antecedeu os grandes protestos a nível nacional no ano seguinte. Protestos, por sua vez, que se prolongaram no tempo e abriram espaço para novos políticos. Foi em outubro de 2016 que tivemos várias universidades e escolas ocupadas[1], de um lado, e, localmente, ao mesmo tempo, o grupo que tentou limpar as pichações da universidade[2], de outro. A ocupação chegou a ter eco em 2019 [3], mas as limpezas, não. Ainda assim, suspeito que houve algo como uma mudança de ânimos: não sei se por força da política nacional, não sei se por velhice dos envolvidos (e a velhice leva à necessidade maior de assunção de responsabilidades), não sei se, quem sabe, pela mudança das redes sociais dominantes (dos eventos em grupo do facebook ao individualismo excessivo do instagram e à dancinha do tik tok), não havendo, nos mais jovens, algum eco de interesse. O que sei é que algo mudou. Ou parece ter mudado.

            Seja como for, a primeira crônica diz respeito a um caso ocorrido em 2013. Até onde tenho registro, ele já foi noticiado, a nível mais nacional, no livro A corrupção da inteligência, de 2017, do antropólogo Flávio Gordon. Ainda assim, mesmo para ele, o material de base para recorrer ao evento é o vídeo do deputado estadual, atual jornalista televisivo, Jacson Damasceno[4]. Até onde ouvi, porém, esse evento não ocorreu unicamente nesse momento do vídeo, mas repetiu-se em outros locais. Não sei precisar se em dias diferentes ou se no mesmo dia. Mas vamos ao caso.

A crônica

            O vídeo é registrado no Youtube como sendo de 14 de novembro de 2013. Não se sabe o dia de gravação. É tão angustiante que, sinceramente, só tive coragem de parar para ver por causa da crônica. Houve um protesto artístico, segundo consta, porque houve a desocupação de uma sala e, para tanto, jogaram fora peças e trabalhos dos alunos que foram entendidos como lixo. Como reação a isso, um rapaz, com uma banda da bunda pintada, aparentando no máximo algo em torno de 23 anos, desfila trajando um coturno e uma possível camisa de tecido fino - e nada mais. 

            Se fosse só isso, porém, não seria algo inovador. O acréscimo à situação é que ele carrega um tijolo amarrado a uma das pontas de uma corda grossa e com alguns nós. Isso também não seria suficiente para chamar a atenção: pois pronto, a outra ponta da corda está amarrada - ora bolas - ao pênis do rapaz. Pois bem, aí temos a situação do sujeito descendo uma escadaria e caminhando pelo departamento de artes até a rua, atravessando-a rumo à frente do prédio com auditórios. A corda é semi-retesada, mas, ainda assim, ele puxa o tijolo unicamente com o esforço do órgão, chegnado a levantar o tijolo em alguns momentos. Em 00:55 do vídeo vemos também uma pessoa trajando máscara enquanto entra no prédio, o que poderia ser indício de uma apresentação ou outro protesto, ao qual não se tem notícia. Não se sabe quem filmou. Ao sair do departamento, vemos a pichação, no prédio com os auditórios, “ESPERANÇA [?]”. 

Entre os dois prédios, há dois tipos de pessoas junto às entradas. No primeiro, o departamento de artes, há um segurança, que ri enquanto ajusta uma câmera digital, provavelmente para tentar filmar o evento, uma funcionária da limpeza, visivelmente assustada, porém voltando ao serviço, a funcionária da lanchonete, que espia no fundo, curiosa, e um homem cuja função não identifico - mas que pela idade e postura não deve ser aluno -, olhando, com dentes trincados, a situação. Atravessando a rua, um tanto deserta, num fim de tarde nublado, o rapaz se aproxima do segundo prédio. Ao fundo, há um funk pancadão (estamos em 2013, nem brega funk nem sequer sarrada no ar saiu ainda) tocando. Há um pequeno anfiteatro na entrada do prédio, e vários alunos sentados: ao lado deles, uma metralhadora de brinquedo. O rapaz passa por entre a arma e os alunos, um deles portando um violão. Os alunos, todos jovens, olham, alguns riem, outros só olham. Não é propriamente surpresa.

O vídeo se encerra com um close no rosto do rapaz sob o capuz ou camisa de malha fina. Ele arregala os olhos, o nariz espremido como macaco, com a ponta marcada por um piercing. Ao longo do vídeo não vemos sua frente, mas agora percebe-se de leve uma tatuagem no ombro direito. Dentes aparentemente bem cuidados.

Mais um dia no departamento de artes se passou.

 

As visões

 

            Muita coisa pode ser dita aqui. Mas a que mais me marca é justamente a da “moça da limpeza” ou “tia da limpeza”. Ela é mencionada, com esses dois nomes, nos comentários dos vídeos, mas não é nela em particular o meu foco. Depois volto a ela.

            Antes de mais nada, é preciso perceber que, por mais que vivamos em um ambiente comum, não experienciamos as coisas do mesmo modo. Quem está no campus para limpá-lo não vai enxergar as coisas do mesmo modo que quem está lá para estudar, nem de quem está lá para evitar encrenca e proteger os alunos. Não sou de sair muito, mas uma vez fui arrastado para um show, e aproveitei para meditar sobre isso. Show de músicas antigas, a maioria gente mais velha relembrando e tentando reviver ali algo dos tempos de juventude. Na pista, frente a uma grade, havia dois seguranças, um homem e uma mulher, de costas para o show, evidentemente, porque eles estavam ali para observar a plateia. Ao meu lado, um conjunto de senhoras, uma das quais bem espalhafatosa, quebrando algumas regras, e abusando da paciência do segurança homem. Ele, lá, via a regra quebrada, tentava resolver o problema, mas não queria causar confusões maiores, então deixava passar. Ali ele era “um tira no jardim de infância”. 

            A contemporaneidade, sobretudo em sites de internet (de cabeça só lembro do Papo de Homem e o Eduardo Marinho) de comportamento, por volta dessa época, 2013, incentivavam bastante o “saiba o nome do seu porteiro”, o “converse com o zelador”, “dê bom-dia ao motorista de ônibus”, como forma de “gratidão”, ou “gratiluz”. Foi a época de “aplaudir o sol”,  do meme da “Milena brisada do ENEM”, de “vender a arte na praia”. Essas tendências de momento vão sumindo na medida em que as gerações mais novas assumem o posto de atividade, e aí, em geral, inventam novidades e/ou respondem às antigas. O tempo passa. O que não passa é a fragilidade de certas afirmações, que, por isso mesmo, passam. As propostas acima, por exemplo, facilmente se quebram: soa falsidade, vira automatismo num instante, exatamente porque a experiência de ambas as classes são distintas.

            Por mais que queiramos a comunhão de todos com todos, existem barreiras imensas. O segurança do campus vive uma experiência diferente da que vive a tia da limpeza, ou a tia da cantina, mas os três estão mais próximos um do outro do que o aluno do mesmo campus. Os quatro, por sua vez, vivem uma experiência, por sua vez, bem distinta da do servidor público, concursado. Os três primeiros estão ali tentando pagar as contas; o quarto tentando conseguir um espaço para ganhar a vida; o quinto, já está devidamente firme num serviço. Os ambientes que frequentam são diferentes, as funções também, assim, independentemente do local de onde venham (que também tenderá a ser de zonas distintas), os interesses e, consequentemente, as conversas, serão distintas. Um aluno de Física não tem muito o que dialogar com um aluno de Ciências Sociais; um aluno de Arquitetura não tem muito em comum com um de Biologia. O que nos une é o diálogo, e, assim, com exceção do fato de que a faixa etária pode gerar um passado comum - a TV Globinho com seus desenhos e animes, uma escola frequentada em comum, uma cidade de onde vieram, uma religião em comum, ou, ainda, o interesse sexual -, não há muito como manter grupos unidos.

            Estou enfatizando isso porque não me parece comum perceber isso. É possível notar, mas rapidamente se esquece. No melhor dos casos, se coloca dentro de uma chave de luta de classes sociais - e, diga-se de passagem, eu não falo apenas de aspectos econômicos, mas sociais, culturais, religiosos, históricos e de livre-arbítrio -, com uma expectativa de mudança no futuro, mas, no presente, mantendo-se exatamente a mesma postura. O fato é: somos separados, e, desse modo, assumimos ângulos diferente, que, no pior dos casos, se padronizam conforme os tais “lugares de fala”. Dito de outro modo, com exceção do livre-arbítrio, somos determinados pela nossa posição, eu diria, existencial, isto é, histórica, econômica, social, cultural, fisiológica, genética, last not least, ontológica.

            De volta às posições, de modo geral temos a dos funcionários, a do ex-político que quer se promover, a dos alunos, a do nosso puxa-saco, ou puxa-tijolo-no-saco, a do camera-man, a do Flávio Gordon, a dos comentadores do vídeo e, afinal de contas, a minha. Vou colocá-las em uma ordem mais lógica.

            Dado um evento, há ali quem o registre. No caso, foi proposital. Trata-se, afinal, de uma intervenção artística, ou protesto.Os dois são quase que sinônimos no nosso contexto. Não se sabe quem registrou, mas se sabe que de algum modo foi parar na posse de Jacson Damasceno (e em ninguém mais). O registro de algo polêmico e proposital, por sua vez, com alguma divulgação, rapidamente se torna viral - conforme o grau de abrangência. Viral, ele gera a possibilidade de uso como amostra de uma circunstância cultural e social. E aí, em menor escala, tem os comentadores do vídeo, e, em maior, entra Flávio Gordon. Ao final, tem eu, que tento meditar sobre a circunstância no conjunto.

            Fazem quase 9 anos desde o evento. O rapaz, se tinha 23 anos, agora está com seus 32. Não consegui saber nome, situação, nada. Mas tem um outro exemplo de situação desse tipo,o Jota Mombaça, que será falado em outro momento; ainda assim, na situação deste rapaz não parece ter havido a intenção de crescer socialmente. Foi apenas um protesto momentâneo.

            Dos funcionários, a “tia da cantina”, jovenzinha, é a mais curiosa. Jovem, trabalha fora do departamento de artes, recebe os alunos que querem comer e estão dispostos a pagar. No campus não temos tanto situações de gravidade - há assaltos, sobretudo nas beiradas, houve algumas situações arriscadas, um ou outro protesto, houve inclusive mendigos que arriscavam passar por salas pedindo esmola; não há mais -, então o segurança pode ficar mais tranquilo. O funcionário desconhecido parece ter visto ali a situação masculina, daí os dentes trincados. Mas a “tia da limpeza” tem um algo a mais. Em primeiro lugar, tome-se o contexto que gerou o protesto. A direção decidiu limpar a sala - mas não é a direção quem limpa, obviamente, são as anônimas “tias da limpeza”. É óbvio que ali no protesto não havia nenhuma causa e efeito aparentes, para as visões dos presentes, era só um rapaz maluco e/ou protestando e/ou fazendo uma intervenção artística. Ainda assim, limpar a sala com obras dos alunos tem um significado: não há um reconhecimento mútuo das obras, nem há propriamente diálogo, nem há, afinal, consciência também da parte dos alunos para com as necessidades de salas. As expressões da “tia da limpeza”, porém, revelam algo mais: eu já ouvi depoimentos de funcionárias da limpeza, e sei o quão distante está o que os alunos de artes cênicas ou artes visuais tomam como normal e “belo” do que elas de fato consideram como tal. Há as famosas histórias de cocôs espalhados no banheiro como se fosse arte. Ora, se a universidade é “bonita”, “bem arrumadinha”, e tudo, dentro do possível, funciona, é porque tem gente limpando esses cocôs, limpando os banheiros entupidos, evitando, assim, que o ambiente apodreça e se degenere. Ação coletiva espontânea é o caramba!, é só ver a antiga integração na calçada que leva ao carrefour para ver o que é um ambiente sem ação ou do poder público ou do poder privado, sem o money. Se o campus não é assim é porque há pessoas vendo a desgraça e limpando-a. É essa tia da limpeza, paga para tal, que vê o que para ela é desgraça, se horroriza, mas então lembra que já viu outras vezes, e simplesmente volta ao trabalho. É desse quase ascetismo que os funcionários precisam desenvolver, como os pais também em relação aos filhos (quantos pais já não ouviram dos filhos um “eu te odeio”? o quanto não deve ferir isso?), ou as figuras públicas em geral em relação ao público, de que depende uma vivência social minimamente estável.

            Passando à categoria seguinte, os comentários do vídeo dão amostra da população em geral. Se o protesto foi planejado e feito, se foi gravado, se foi espalhado, era porque ainda que semi-conscientemente os envolvidos sabiam que aquilo chocaria. Isso implica que há uma expectativa na população fora daquele círculo social, e a ação bate de frente com ela propositadamente. Então é evidente que a maioria dos comentários seriam reações negativas, porque o vídeo, postado por um vereador/jornalista não é dirigido especificamente a alunos do departamento de artes, ou mesmo do centro de ciências humanas, letras e artes. É dirigido à população em geral, e esta, obviamente, é bem mais ampla do que aqueles. Isso por si só explica diversas situações, repetidas ad nauseam, como os nerds politicamente engajados reclamando dos nerds que falam contra as escolhas, mais explícitas do que antes, de engajamento nas produções pop. Choca, e cada vez mais é feito para chocar, porque o choque dá like “fale bem ou fale mal, mas fale de mim”. É de 2012 o livro de Ryan Holiday explicando o mecanismo, Acredite, estou mentindo. Assim, os comentários do vídeo são um reflexo natural da estimativa média da população que assiste aos fenômenos midiáticos - de menor, como o caso, ou maior porte - e se expressa, sem, contudo, definir o rumo de nada. É literalmente parte da dose de entretenimento: ler notícias, assistir vídeos para firmar-se na sua posição com mais base de exemplos.

            Assim, fica mais fácil entender a posição dos alunos mostrados no vídeo, pertencentes muito provavelmente ao departamento - afinal não há muito motivo para alunos de outras áreas se espalharem fora do seu habitat natural. O violão do aluno, o funk ao fundo - possivelmente parte de um exercício de encenação ou afins -, uma ou outra risada, porque, afinal, ninguém esperava aquilo naquele momento específico, mas nada mais do que isso, porque, em alguma medida, era, de fato, esperado.

            O candidato a deputado estadual ou jornalista - não sei ao certo sua função na época - tem a função de expandir o alcance do fato. São aos cargos políticos, como aos nomes já firmados na mídia, que recorremos quando queremos ampliar a visibilidade de um fato. Estes, por sua vez, estando diante de um fato “quente”, não perdem tempo: é uma promoção mútua - para o ator do vídeo, para si próprio. Não temos nesse caso vídeos de pessoas comentando, reagindo ao fato: estes geralmente fazem o mesmo que os anteriores, isto é, se aproveitam do fato para se promoverem. A depender do alcance e teor artístico do fato, ele pode gerar inúmeras, inúmeras, variantes: Undertale, um jogo, é um excelente exemplo de estudo do quanto um fato pode gerar uma sucessão enorme de covers possíveis, aproveitando-se de todas as possibilidades do fato (música, narrativa, design de personagens, jogabilidade etc.).

            O único comentário gerado, até onde sei, pelo fato foi o do Flávio Gordon. Não li seu livro, mas é preciso levar em conta que, quando se fala em “balbúrdia” nas universidades, é por um close dado a esses fenômenos [5]. O contexto do livro, até onde conheço, é sobre a decadência da inteligência: em outras palavras, a universidade não é mais identificado como um lugar para produção de um conhecimento formal, rígido, mas sim mesclado a uma ação política que, por sua vez, é já uma perda da capacidade descritiva, porque inclui aí um “viés ideológico”. Isso viria desde os grandes escândalos de corrupção até a tentativa de defender esses mesmos políticos e fazer uso do aparato educativo para contar uma narrativa que não os enfatize. Desse contexto de ideias também se expande a proposta do “escola sem partido”. Eu nada entendo dessas coisas, então não opino, mas há um tópico que me cabe opinar, mas não será neste texto, e será sobre a questão da passagem de gerações no campus. Mas a posição do Flávio Gordon materializou em livro algo que estava no ar, e ele coletou os exemplos úteis para o conflito. Diga-se de passagem, as denúncias à universidade em si são antigas: das denúncias de Osman Lins [6] com seus “problemas inculturais brasileiros” dos fins da década de 70 até a expansão do gênero com a trilogia do “imbecil coletivo” de Olavo de Carvalho em meados dos anos 90. A crítica deve existir, em todas as partes: sem isso, não há como saber os efeitos das nossas ações. Mas entre a desses dois autores e a do Flávio Gordon, a deste último parece mais sociológica, em comparação com a mais conteudística dos outros.

            Assim, chegamos à minha posição. Eu nem sequer tinha visto o vídeo, apesar de conhecer a lenda, e ter ouvido sobre ela até, talvez, por volta de 2016, por pessoas que na época tinham em torno de 26 anos. Em geral, para um aluno comum, essas situações todas, como eu disse, são apenas fatos midiáticos: vêm e vão, e se ficam na memória é um mero acaso: sua função é unicamente ajudá-los a definir melhor sua posição sobre a vida. De minha parte, infelizmente, esses fatos ficam mais cravados, e minha memória costuma revisitá-los aqui e ali, sem nenhum motivo aparente. A posição que eu ocupo é como a do youtuber, a do jornalista ou a do Flávio Gordon, isto é, eu estou me promovendo em cima de um fato. E, ainda assim, meu critério é tentar ver um local com seus significados possíveis: não me interessa saber se o puxa-saco está certo ou errado, mas sim pensar em significados que dê para extrair dali, além de, na narração, mapear uma unidade, que é a cultura do campus. Todos tentaram esquecer, eu não consegui, então é minha sina trazer de volta o passado. Que seja ao menos com alguma finalidade útil, pedagógica, porque lembrar-se, em si, e eu sei bem disso, é um tijolo amarrado no saco.

Expandindo

Vou expandir do mais comum ao mais esquisito. Vamos ao primeiro.

A discussão que imediatamente nasce do fato é a questão da “arte moderna”. A regra geral da arte moderna é que ela, por definição - reconhecida ou não pelos artistas - é incompreensível para a população comum. Ortega y Gasset no ensaio de A desumanização da arte faz uma reflexão sobre essa distância entre a arte romântica, voltada para atiçar os ânimos do ouvinte, para a arte moderna, focada excessivamente na forma. Também Vilém Flusser, em O mundo codificado, exemplifica bem esse fenômeno. Arte moderna não é feita para o povo: séries da netflix são, o funk é, o rock é.

A direita vai tentar descartar os fenômenos chocantes da arte moderna como “não arte”, inspirados nas citações que Roger Scruton faz a Marcel Duchamp. Mais nacionalmente houve dois episódios conhecidos: o do Queermuseu, que chocou sobretudo pelas hóstias marcadas com o nome vagina [7]; e o da escultura de 33 metros, Diva, planejada pela escultora Juliana Notari e produzida por pedreiros [8]. É chato, mas muito útil, polarizar o fenômeno: os conservadores tentam marcar passo na “arte clássica” (popularmente representada, por exemplo, pelo vinheteiro ou pelos documentários da Brasil Paralelo); os progressistas continuam a produzir a tal da arte atual. Mas e o que é essa arte? E o que tem a ver com o rapaz com o tijolo arrastado no pinto, ou demais intervenções artísticas?

Não sou especialista, mas até onde entendi, e por observações, a arte moderna é simplesmente o processo de academização da arte. Não que não houvesse academias para formação de músicos ou afins, mas a arte do fim do século XIX em diante recebeu influxos novos: I) um maior contingente de artistas; II) a influência, vinda primeiramente da física com a revolução copernicana em diante, no século XVI e XVII, depois para a filosofia com Kant, no XVIII, até desembocar nas artes no século seguinte: essa influência foi, de um lado, o desfoque dos sentidos para atingir a verdade; de outro, a necessidade de aparelhos técnicos cada vez mais restritos a uma classe para poder atingir essa verdade (da invenção da luneta/telescópio e do microscópio em diante); III) o desejo de inovar e romper com o passado, cada vez mais presente, sobretudo a partir de Hegel (século XIX), desembocando na proposta de Marx e Engels e, bom, o resto vocês já sabem. Com tudo isso, a arte, como as ciências, viraram “coisa de especialista”: atualmente, com o avanço das vagas e presença da universidade na sociedade, também a cultura virou “coisa de especialista” (Câmara Cascudo não era formado em História ou Letras, mas ainda assim foi nosso maior nome da época). Coisa de especialista, por definição, o é porque é feito por quem tem um vocabulário próprio, e fala para quem adquiriu esse mesmo vocabulário. O povo, portanto, está de fora; quem quer que não tenha essa formação, também. O que sobra é o sentimento geral que comunga aquela produção.

Em outras palavras: a arte moderna quebrou com a noção clássica de produção. Antes a ideia era “produzir algo belo”, como a História, por exemplo, era equivalente aos “grandes feitos”, dignos de imitação. Passou a ser a coleta e ordenação de todo e qualquer fato. Idem, a arte. Cada área artística se fragmentou nos seus elementos fundantes, e passou-se a levar em conta o desenvolvimento dos mesmos. Assim, por exemplo, a música diz respeito ao som: isso significa meditar tanto sobre o significado das escalas, melodias e harmonias (de um Stravinsky, que fez uma dialética com o passado, a um Schoenberg, que encaixou o passado num novo modelo de harmonização), até a própria meditação do significado de som (John Cage compôs 4 minutos e 33 segundos, onde o pianista fica parado na frente do piano, porque a “música” é o som, irrepetível, da própria plateia). 

Já a intervenção artística em questão é uma variante do teatro: este se fragmentou, por exemplo, em narrativa, o corpo dos artistas, a cenografia, a iluminação,a relação com a plateia. Destes, suponho que em parte pelo ambiente foucaultiano que subsiste nas áreas humanísticas, o segundo aspecto é imensamente mais considerado; ao contrário, por exemplo, da arte moderna do teatro do absurdo ou existencialista, que focava em outros aspectos [9]. Por regra geral, todo ator precisa focar muito na dessensibilização do próprio corpo, como o médico em relação ao corpo alheio, o aluno de Letras com o gosto literário pessoal, o musicólogo com o gosto sonoro etc.. Daí as intervenções artísticas serem tão chocantes para a população comum: elas enfatizam o corpo em situações que uma pessoa não habituada a essa dessensibilização acharia absurdo. O absurdo permanece, mas, agora, engajado politicamente. O teatro saiu dos palcos e toma o mundo como palco.

Do ponto de vista de um meditador das artes, toda intervenção artística é um elemento a se pensar sobre as possibilidades do teatro - como todo compositor pode usar qualquer elemento sonoro para pensar em músicas possíveis; ou um ficcionista, toda cena ou fofoca. Apesar de eu não ser artista ou artífice de nenhum tipo, gosto de brincar com as possibilidades, então para mim eu vejo um potencial na ação do rapaz, que talvez ele próprio nem tenha intencionado fazer uso. Ainda assim, não faz sentido querer que a população leiga faça uso desse tipo de ação: ela é para um público muito específico.

Imagino que por causa disso a esquerda tenha ficado mais calada nos últimos tempos. Suas ações foram justamente o que gerou a indignação coletiva suficiente para eleger o lado contrário. De minha parte, fico triste apenas porque reconheço que a arte clássica, se imitada hoje, não funciona mais. SImplesmente não funciona: conheci quem tentasse imitar Bach, literalmente, compor algo novo, mas no mesmo estilo barroco. Não faz sentido nenhum. Nós estamos em outra época, com novas exigências de representação e representatividade - que não são, diga-se de passagem, representar as várias cores e etnias ou o que quer que seja, mas, antes, representar o próprio por que disso estar assim, isto é, vivemos na época da mescla de culturas e religiões. A internet garantiu que nunca mais voltaremos à condição de espaços isolados mutuamente pela distância física. É essa mescla cultural o verdadeiro mote da arte moderna de alto nível. Que, aliás, não vejo atualmente em lugar algum. Bernardo Souto, poeta, tenta imitar o modelo deixado por um Jorge de Lima, por um Bruno Tolentino, mas apesar da composição de bons poemas, a forma não é original, mas imitativa do mundo pré-internet. No mais, só sobra: I) imitação do começo do século XX (quebra da forma clássica); II) uso semi-consciente dos aspectos da técnica com finalidade política de menor ou maior porte (como o caso do rapaz com o tijolo e demais intervenções artísticas); III) imitação tosca do passado; IV) produção de novas técnicas (me mostraram uma moça que fez poemas com as sugestões de busca do Google para uma palavra; poesia “não-criativa”, intencional). De minha parte, eu vejo toda essa bagunça como um grito da arte assumindo a posição dos Seis personagens à procura de um autor[10], peça de 1921 de Pirandello. Há muita produção para exemplificar técnicas possíveis, e pouca produção efetiva para dar voz às circunstâncias reais vividas na nossa época ou que virão a ser vividas (se se pensa a arte como “antena da raça”). Há pouca meditação no “o que contar”, porque os enredos já estão embalados e dados nas preocupações sociais dos mais variados tipos. Clichês ilimitados, quando muito, superados pelo nascimento de um novo clichê, como o do rapaz que fez todo um enredo nos moldes do discurso conservador para falar da sua tristeza mgtow [11]. Quando virão os grandes novos artistas? A arte está à espera. Suspeito que sumiram porque sumiu a crítica de nível, ficando, ela também, restrita às regras técnicas, medíveis nos moldes acadêmicos [12].

 

***

 

Um segundo fenômeno que me chama imensamente atenção é o próprio ato do rapaz. Ele me lembra, de imediato, Pabllo Vittar. E, apesar da ênfase sexual, existe uma ironia no próprio ato, que é negação do próprio sexo. Arrastar um tijolo no pinto implica um desprendimento imenso da própria carne. É curiosíssimo, e até enlouquecedor pensar nisso. Vamos lá.

Uma vez ouvi falar que haveria um “jejum geral pelo Brasil”. Achei bonita a ideia, apesar de não entender bem o que era um jejum (chego lá), e daí, em segredo, passei um dia sem comer. Um dia inteiro. Da tarde de um dia até a noite do dia seguinte. Não lembro se bebi água. Certo. Só bem depois foi que entendi que jejum era entendido como pular só uma refeição, e olhe lá. Já dizia Omar, de Todo Mundo Odeia o Chris: trágico! Mas então, fiquei um dia sem comer. Eu, que não sou propriamente religioso, aproveitei, isto sim, para meditar no ato de ficar sem comer. Escrevi a respeito, observando os efeitos que gerava em mim. À parte os efeitos específicos, um ponto me marcou: tentar focar em algo ao estar com fome dá mais trabalho. É como querer ler e entender um livro rodeado de televisores em alto som; com a diferença de que não dá para mudar de espaço, porque eles gritam dentro de você. A capacidade de forçar a concentração em algo implica, evidentemente, auto-sacrifício, e, ao mesmo tempo, amor a esse algo. É assim que se entende os “empresários que jejuam” (aqueles que usam coque e têm um ar budista, vegetariano), os mgtows, o drama dos homens que castigam o próprio corpo pela fé [13], os celibatários, e, afinal, o nosso puxa-saco e Pabllo Vittar. O que muda, no fim, é a intenção e o conjunto de ação das pessoas, mas venham comigo.

Os dois primeiros obviamente fazem isso para ter disciplina sobre si mesmos (sobre o próprio corpo) para, domando-o, cumprirem suas metas pessoais. Os dois últimos se dessensibilizam do próprio corpo a fim de alcançar um objetivo: no penúltimo era uma causa social, ainda que menos; no segundo, o próprio sucesso. Os dois do meio o fazem não para si, nem apenas para uma causa social específica, mas em nome de alguém, do sofrimento de outra pessoa. O que há em comum no seis é uma das intenções e efeitos inevitáveis do ato, que é o domínio da própria carne. Apesar disso não impedir o desejo sexual, como, aliás, espera-se dos dois últimos, isso os coloca potencialmente num patamar próximo.

Quando se diz que “Deus está em toda parte” é, em parte, porque qualquer ato pode ser encaixado dentro de um quadro de compreensão espiritual, ainda que não seja comum, e, portanto, nem as próprias pessoas que fizeram o ato saibam interpretá-lo enquanto tal. Assim, por exemplo, uma coisa eram as pessoas que tinham superstições; outra era Cascudo ou universitários que decifravam-nas e explicavam-nas: os primeiros o fazem pelo hábito, os segundos colocam o hábito num quadro de significado. Os quadros variam, e não convém detalhar isso, mas o espiritual, ao que me parece, é o mais abstrato, e também o mais abrangente. Assim, o ato de desprendimento do próprio sexo ao arrastar o tijolo com o pinto por uma causa comum denota uma força muito grande. Daquele simples ato, e, mais ainda se foi repetido, ele poderia virar impotente, ou ao menos prejudicado para sempre. Como, aliás, Pabllo Vittar, amarrando o pinto para trás e tendo que se concentrar para não ter nenhuma ereção no processo de se manter com sua imagem pública. É algo de uma força tremenda, que, até onde entendo, um padre, um desejoso do alimento espiritual, muito gostariam de ser capazes de fazê-lo. Senão o mesmo ato, ao menos um ato análogo. Quantos conservadores que seriam incapazes de sequer um jejum de um dia inteiro (eu fiz sem saber, mas eu não valho), ou atos, como a ocupação de um mês na reitoria, que a esquerda costuma fazer? É digno de admiração! Só que falta quem entenda esses atos, e estenda, portanto, o significado dos mesmos em seu sentido mais sublime. Afinal, o protesto do rapaz não vai mudar a visão dos funcionários e da direção sobre arte, nem vai impedir que sejam jogados fora exercícios dos alunos quando a sala precisar ser desocupada; e ele não parece ter feito para ter sucesso na vida, mas apenas pela causa. Se soubesse o quanto mais poderia ter obtido do seu ato, se ao menos daqui para frente relembrá-lo com sua devida potência de novas ideias para ele próprio, quem sabe não possa ter orgulho de si mesmo e crescer como ser humano no sentido mais amplo possível. Como a arte moderna, estamos todos a procura de quem explique a nós mesmos. A quebra da ordem não é uma quebra do desejo de ordem, mas o desejo de uma Ordem mais ampla e abrangente. Estamos à espera dela.

 

[1] http://www.tribunadonorte.com.br/noticia/na-ufrn-ocupaa-a-o-segue-na-reitoria/362476 

[2] https://tribunadajustica.com.br/universitarios-fazem-mutirao-para-limpar-pichacoes-na-ufrn/

[3] https://www.youtube.com/watch?v=7pl74Y28Hi4

[4] https://www.youtube.com/watch?v=RZlHIZ4hNs8 

[5] “Ele deu exemplos do que considera bagunça: ‘sem-terra dentro do campus, gente pelada dentro do campus’”, 30 de abril de 2019, https://veja.abril.com.br/brasil/universidades-com-balburdia-terao-verbas-reduzidas-diz-weintraub/

[6] Tem dois exemplares no campus. “Do ideal e da glória

[7] https://veja.abril.com.br/coluna/rio-grande-do-sul/veja-imagens-da-exposicao-cancelada-pelo-santander-no-rs/

[8] https://revistacasaejardim.globo.com/Casa-e-Jardim/Arte/noticia/2021/01/diva-escultura-de-juliana-notari-que-retrata-natureza-feminina.html

[9] Quem quiser alguns exemplos de teatro para assistir, veja a seguinte playlist: <https://www.youtube.com/playlist?list=PLfuWtAqSIjndHbMd4eW01xLqxtz7x9S0e>. O canal consta, inclusive, com teatro clássico japonês e chinês, legendados, dentre outros. Samuel Beckett, Pirandello, Ionesco, são exemplos de produtores de teatro moderno de meados do século XX. Ariano Suassuna também, mas sua proposta foca menos nas inovações técnicas do que na ideia de integração do passado com o presente: a produção de Suassuna ou do seu Movimento Armorial expandem a ideia romântica de um Villa-Lobos, mas com ênfases mais modernistas.

[10] https://www.youtube.com/watch?v=ygWvAC3UrIY 

[11] Não li, mas admito que achei a proposta ao menos interessante por ser um grupo social pouco abarcado. https://clubedeautores.com.br/livro/naufragio

[12] Ver, da década de 90, o Imbecil Coletivo do Olavo de Carvalho. E, mais modernamente, feita por alguém focado na área de Letras, a crítica de João Cézar de Castro Rocha, “Crítica Literária: em Busca do Tempo Perdido?”, de 2011.

[13] O código da Vinci é uma bosta para esse tema, apesar de servir como uma imagem longínqua. Quem quiser um exemplo mais realista, veja as obras de George Bernanos, como Sob o Sol de Satã ou Diário de um Pároco da Aldeia. Vale os filmes, apesar dos livros terem técnicas úteis para a compreensão das ações humanas que não tem como transpor para uma filmagem audiovisual.

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